• Marco Aurélio Saraiva

Memórias da Infância



Muitas viagens marcaram a minha infância, não por terem mudado a minha vida de uma forma ou de outra, mas por que meu cérebro se agarra a lugares e coisas interessantes como uma criança se agarra a um brinquedo novo. O brinquedo ainda está lá, anos depois, quando não há mais nenhum uso para ele, mofando dentro de uma caixa, trazendo apenas memórias de uma vida passada.


Pessoas são diferentes - meu cérebro não parece gostar muito delas. Tornam-se borrões, manchas indefinidas. Minha teoria é que, na verdade, não lembro tão detalhadamente dos momentos que aconteceram há décadas. Minha criatividade toma conta das lacunas e preenche com fantasias bem elaboradas, cores mais agudas e detalhes mais interessantes, como se estar vivo naquela época fosse mais real do que hoje. Não faz o mesmo com pessoas, porém; elas continuam lá como borrões em número inexato, como se criar rostos e nomes que não estavam lá fosse um pecado para as minhas fantasias, uma espécie de sequestro onírico. Brincar de deus.


Lembro de uma viagem que fiz com minha família para um recanto muito frio do Brasil. A casa era de madeira do chão ao teto, e dois sofás velhos na sala encaravam uma lareira; algo alienígena para mim, que vinha do Sol de São Gonçalo. A lógica dita que meu pai e minha mãe deveriam estar lá, mas a única pessoa de quem lembro é da minha avó Orita, e por uma única razão: alguém falou que ela não poderia sair da casa naquele instante por causa do frio extremo lá fora. E a razão deste detalhe permanecer icólume na memória é que certa vez me vi do lado de fora da casa, seguindo os passos de amigos - lembro que minha irmã, talvez, estivesse envolvida, e também outros cujos rostos já não me lembro - até todos desaparecem no meio da névoa branca e espessa, que escondia as árvores e arbustos e até o rio, cujo correr da água eu podia ouvir, mas não enxergar. Naquele momento entendi o motivo de minha avó não ter saído de casa: fazia, realmente, muito frio. Minha respiração se unia à névoa em vapor branco, e eu me lembro estar pisando em neve. Neve. Hoje penso que isso não pode ser real; não acho que havia mesmo neve lá. Talvez a branquidão do mundo e o orvalho congelado que cobria os arbustos fizessem as ligações em meu cérebro e, súbito, o chão tornou-se branco como a neve em minha fantasia. Mas a imagem ficou; este momento único, u perdido de tudo e de todos, em um mundo branco e muito distante do que eu imaginava conhecer. E fazia muito, muito frio.


Outra viagem da qual me lembro é o oposto da memória anterior: fomos à praia. Mas era uma praia nova, não uma das que sempre visitávamos. Era diferente, isolada de tudo - não havia casas nem prédios por perto, nem vendedores ambulantes ou barracas de cerveja. A música, ao invés do samba e do pagode dançando para fora das caixas de som, era apenas o vento e as risadas. Uma rua de asfalto nos guiou até lá, mas era tão isolada de tudo que os carros não estvam estacionados ordenadamente; ninguém se importava onde você os deixava. A extensão de areia era enorme; tão vasta que me permitia correr até cansar e ainda assim não alcançar a água. As ondas das praias que eu conhecia quebravam e logo se recolhiam para repetir o feito, em um ciclo infinito. No caminho, se tivessem alcançado seus pés, tentavam puxá-lo com força. Naquela praia, porém, as ondas batiam em intervalos menos regulares e poças de água - verdadeiras piscinas - ficavam para trás. Estávamos próximos de um pontal onde o mar se jogava contra a rocha. Uma extensão de areia levava até uma subida que terminava em algo que hoje eu penso ser impossível: um castelo, que nos observava sorridente, convidativo. Talvez fosse um antigo farol, mas nunca fui em uma praia brasileira antes que tivesse um farol velho a ser explorado. Talvez fosse a mansão de algum milionário, mas a localidade era improvável demais. Então, gosto de imaginar que o castelo ainda está lá, em algum lugar do Brasil a ser explorado, em uma praia isolada e pouco pisada, à qual nunca mais retornei.


Há muitas outras memórias, é claro. Às vezes, quando vou dormir ou enquanto tomo banho, imagino que elas não existem em lugar algum senão dentro dos meus pensamentos. Penso que, quando eu me for deste mundo, elas também irão embora; a neve forrando o chão vai derreter, e o castelo vai desmoronar e afundar na água salgada. Por isso decido, por vezes, escrever com mãos soltas e dedos não planejados. Para salvá-los.


Agora, eles existem aqui.



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