A Porta



Sozinho no apartamento de luxo, Samuel preenchia o silêncio com os sons das teclas do computador. A porta do quarto principal chamava a atenção à esguelha; pesava o mundo para o seu lado como uma força gravitacional. Tentou ignorá-la. Quando os dedos aquietavam, o tique-e-taque do relógio de parede assumia o primeiro plano, retumbando compassado pela sala. O cômodo, apesar das mobílias, mais parecia um vasto vazio cheio de pinturas e retratos a velar com olhos atentos. Cortinas obstruíam a luz do Sol ainda jovem, desbotando o ambiente.


A tela do laptop era um nicho de luz não-natural. Visto de longe, Samuel era um rosto flutuando na sombra. Uma notificação surgiu: sua mãe estava online.


“Oi mãe”, digitou, “tentei te ligar a semana toda. Como estão as coisas por aí?”.


A mensagem surgiu na tela sem confirmação de leitura. Aguardou. Alguém girou a maçaneta da porta do quarto e, para ele, o tempo parou. Quando olhou, a porta estava perfeitamente imóvel; a maçaneta parada como deveria estar. Da esquina surgiu Paolo, trotando para a sala casualmente. O husky siberiano encontrou um lugar no sofá e se deitou.


Samuel voltou os olhos para a tela novamente. Sua mãe estava offline e a mensagem jamais foi lida. Tentou voltar a trabalhar, mas os dedos tremiam. Só então notou o coração acelerado. Levantou-se e resolveu levar Paolo para passear. Só lembrou na última hora de vestir a máscara N95. Na parede, o relógio marcava seis e quinze da manhã.




As luzes do corredor do prédio acenderam ao detectarem sua presença. O silêncio era tal que ele podia distinguir o zumbido característico da eletricidade encontrando os filamentos da lâmpada. Todo o lugar parecia um gigante solitário, apesar de seus poucos quatro andares, dois apartamentos por andar. Ouviu seus passos e os sons das unhas de Paolo ecoarem. Só foi gratificado com a melodia do mar quando saiu do prédio pelo portão lateral.


O dia estava cinzento. A brisa litorânea recebeu-o suave. Fez o caminho de sempre: deu a volta no quarteirão, virando à direita todas as vezes. Paolo, mesmo acostumado ao percurso, sempre parecia feliz em esticar as patas para fora do apartamento. Urinou em postes, cheirou, defecou e, quando notaram, estavam de volta à entrada.


Samuel tentou voltar a trabalhar, mas a porta ao lado ocupava todos os pensamentos. Fechada; magnânima; sorridente. Desistiu. Foi encontrar uma caneta e um caderno em branco – teve mais dificuldade de encontrá-los do que esperava. Acomodou-se ao lado de Paolo no sofá e começou a escrever.


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Já peço desculpas, doutor, mas você falou para escrever o que vem à mente, e a primeira coisa que penso é que isso é uma perda de tempo. Nunca vi sentido em escrever pensamentos. Já faz um mês desde a nossa última consulta e sequer pensei em escrever alguma coisa à mão. Então hoje, de repente, senti esse desejo inexplicável. Tenho certeza de que é a porta.


Tenho que dizer que acho que Clozapina não está fazendo efeito. Você pediu para que eu os trancasse no quarto e esquecesse deles por um tempo, e foi o que fiz; mas hoje juro que vi a maçaneta mexer.


Acabo de rir aqui. Só de escrever a última frase me senti um idiota. Eu sei: você sempre falou para que não me auto depreciasse, mas foi o que senti na hora. Não tem ninguém no quarto. Eles não existem. Eu sei, e o fato de eu saber quer dizer que o remédio está fazendo algum efeito sim.


Acho que estou sendo afetado pelo isolamento social. Nunca imaginei isso; você sabe como gosto de ficar sozinho. Tenho meus jogos, e meu trabalho, e não ligo muito para sair de casa. A pandemia não mudou muito a minha rotina, mas esta semana foi diferente. Acho que não vi ninguém a semana toda. Está certo, o governo lançou agora a lei de isolamento, mas nunca vi o povo obedecer assim, tão rápido. Parando para pensar, acho que não falei com ninguém desde segunda-feira. Minha mãe e meu pai estão presos na Itália ainda – o voo deles foi cancelado de novo - e não respondem minhas ligações. Minha equipe toda do trabalho está de férias e estou aproveitando para dar um gás maior no projeto.


Ao menos a pandemia está servindo para alguma coisa: nunca estive tão focado no trabalho.


Já me sinto melhor. Odeio quando você está certo, doutor, mas espero não ter que escrever mais vezes. Minha mão já está doendo.


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Horas depois, o arranhar das unhas de Paolo na porta da sacada quebrou sua concentração. Samuel foi pego de surpresa pela ausência do Sol. Não tinha visto o tempo passar.


Lá fora a noite o abraçou mais escura que o habitual. Sentia como se, caso esticasse as mãos longe o suficiente, fosse capaz de tocar o lençol negro que cobria Búzios naquele fim de dia. Todas as estrelas estavam lá – e a lua também – mas o sentimento era o de que o mundo tinha escurecido um pouco mais desde a última vez que prestara atenção. Da sacada avistou alguém andando pela calçada, encontrando o caminho adiante com a ajuda de uma lanterna. Samuel sorriu.


De volta à sala encontrou novamente o caderno e a caneta mas, quando estava prestes a começar a escrever, uma notificação soou no laptop. Fabíola estava online e falava com ele.


“Samuel?”.


A mensagem surgiu abaixo da foto de uma mulher que exalava jovialidade com um sorriso de dentes brancos. Samuel respondeu:


“Fabíola? Caramba, não nos falamos há anos. Como você está?”.


“Estou bem. Menino, acho que te vi hoje”.


“Duvido muito”.


“Você está morando aqui em Búzios?”


“Como sabe??”


“Então eu te vi, lerdo. Você e aquela coisinha fofa do seu husky”.


“Ah é, você já conhecia o Paolo né?”


“Sim, claro. Caramba, que coincidência gigante. Como você veio parar aqui?”


“Longa história”


“Quer me contar pessoalmente? Estou ficando doida com esse negócio de isolamento, e olha que nem tem duas semanas”.


“É, você sempre foi dessas, não aguenta ficar um minuto sem gente por perto”.


“Então, vamos? Faz um século que não falo com ninguém da faculdade também”.


“Não tem nada aberto”


“Vem aqui para casa, ou eu vou para a sua. Prometo que passo álcool em tudo. =)”


Samuel levou longos minutos para responder.


“O apartamento está uma zona”


Fabíola respondeu com um emoji impaciente.


“Você sempre foi todo certinho. Vem para cá então, a gente pode conversar do jardim. Estou cuidando da minha mãe, ela é grupo de risco, então é melhor não entrar”


O rosto de Samuel – flutuando entre as sombras ao redor do nicho de luz – passou outros longos minutos encarando a tela do laptop. Voltou-se para a porta do quarto – uma porta comum, velha, até um pouco feia. Riu para si mesmo e, voltando-se novamente para Fabíola, concordou com o encontro.


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Quase joguei este caderno fora. Me senti um idiota hoje pela segunda vez. Só não jogo fora porque bem ou mal está me ajudando, e acho que você, doutor, vai gostar de ler. Enfim, daqui de cima vi um homem andando na calçada e uma antiga amiga da faculdade falou comigo no messenger. Que imbecilidade achar que não tinha visto nem falado com ninguém desde segunda-feira. Só porque hoje de manhã não vi ninguém durante o passeio com Paolo, devo ter criado memórias falsas. E ando desligado, inclusive, porque a Fabíola me viu e eu não a vi. Estou lendo esse livro do Mário Sérgio Cortella e ele fala sobre a memória e sobre o cérebro; sobre a capacidade que temos de inventar coisas só para fazer uma ideia ter algum sentido. Somos como deuses, criando uma realidade totalmente diferente só com o poder da mente.


Caramba, o que eu estou escrevendo? Cismei de virar filósofo agora?


Enfim, marquei de encontrar com a Fabíola amanhã no quintal dela. Para dizer a verdade estou me sentindo um idiota pela terceira vez, porque falei para ela que o apartamento estava uma bagunça só para não recebê-la aqui.


Quer saber? Vou voltar lá agora e remarcar para ela vir aqui. Meus pais têm uísques e vinhos guardados na adega. Vai ser legal. Você e minha mãe vivem falando para eu perder o medo das pessoas. Além do mais, ela foi uma das poucas que conversava comigo na faculdade. Acho que vai ser divertido.


Não queria admitir mas estou gostando disso de escrever com papel e caneta. Meu pulso dói porque acho que nunca mais escrevi à mão, mas é legal ter que parar para pensar em cada palavra antes de pôr no papel. No computador eu saio escrevendo e, quando erro, apago e volto. No papel não tenho esta facilidade. Acho que isso de fazer as coisas devagar me ajuda: percebi que um dos poucos momentos em que paro de balançar a perna que nem um alucinado com tique nervoso é enquanto estou escrevendo à mão.


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Não escrevo faz três dias. Na verdade, tentei escrever ontem e anteontem mas rasguei tudo antes que eles lessem. A sala está infestada de papel picado. Agora que coloquei o sofá escorando a porta do quarto estou me sentindo mais seguro. Paolo está ali, dormindo, e de vez em quando, quando eles tentam sair pela porta, ele acorda.


Eu escreveria para você, doutor, se é que você está lendo isto, mas acho que agora estou escrevendo mais para mim mesmo. Botar as coisas no papel me ajuda a ordenar os pensamentos.


Eu quase a deixei entrar!


Como não tinha notado antes? Tudo está estranho demais. A maçaneta girando. Todos sumiram. Então assim que eu noto que estou sozinho há dias, vejo um homem na rua e a Fabíola – com quem não falo há anos – vem conversar comigo. E só ela! Meus pais ainda não me atendem. Ontem tentei falar com o Pedro e com o Josias e eles nem online estavam – logo eles, que estão sempre jogando alguma coisa na internet!


Está óbvio que esta não é a Fabíola. São eles tentando sair do quarto. E o homem, segurando uma lanterna de noite? Quem anda pela rua com uma lanterna?? Será que o homem era um deles? Será que eles estão ali fora, esperando que eu saia de novo com o Paolo só mais uma vez?


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Já entendi porque não escrevo para você, doutor. Porque você é um deles. De agora em diante, escrevo só para mim.


Pense, Samuel. Como eles descobriram que você descobriu? Não estou escrevendo nada disso no laptop, então não tem como me espionar. Será que eles conseguem ler o caderno? Mas como, se estão trancados no quarto?


Paolo?


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Pensei muito antes de escrever estas palavras. Mais de uma vez quis rasgar o caderno inteiro. Na verdade, quase rasguei – algumas das últimas folhas que escrevi semana passada estão bem amassadas.


Não vou tentar me justificar. Doutor, acho que tive o que você chama de episódio, mas agora está tudo bem. Consegui sentar com calma e raciocinar. Estou angustiado. As pessoas ainda não me atendem na internet ou no telefone. Não consigo falar nem com você. Preciso de ajuda. Pedi desculpas para a Fabíola pelo messenger e pedi para ela voltar.


Parei para pensar e o homem de noite com a lanterna - e a noite muito escura – até fazem algum sentido. Provavelmente faltou luz na rua mas o prédio ativou os geradores. Lembrei também que a Fabíola sempre falou na faculdade que a mãe dela morava em Búzios – eles não tinham como saber disso, eu nunca tinha escrito em lugar algum.


Eu sei, doutor, estou falando deles como se fossem reais, mas foi a forma que encontrei de lidar com a situação no momento. É muito mais fácil achar que são reais e que estão trancados no quarto do que tentar fingir que não existem. Acho que, em parte, eles querem que eu ache que eles não existem.


Espero que você atenda o telefone logo. Temos que marcar uma consulta nem que seja online.


A Fabíola chegou.


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Samuel abriu a porta e Fabíola o surpreendeu com um uivo macabro, mimetizando os fantasmas dos filmes de terror, serpenteando os dedos e arregalando os olhos. Ao final, gargalhou.


- Esse prédio é assustador, parece que não vive ninguém aqui! O que há com você, ficou realmente assustado?


Ele, parado e segurando a porta a meio caminho, riu de si mesmo.


- Não, claro que não. Entra. O prédio está vazio sim. A maioria é apartamento de veraneio e com o isolamento social ninguém está vindo para cá.


Fabíola deixou as sandálias no tapete de entrada. Os pés descalços tocaram o assoalho de madeira com curiosidade e cuidado. Prestava atenção em tudo. O vestido de cores quentes perdia um pouco da vivacidade ao ser abraçado pela pouca luminosidade do lugar. Teve que olhar para cima para mirar os olhos de Samuel.


Você não mudou nada.


Só faz uns três anos.


Ela riu.


Eu te abraçaria, mas estou cuidando da minha mãe e estou toda paranoica.


A amiga ofereceu-lhe o cotovelo e ele não teve reação. Passaram alguns minutos descontraídos onde ela tentou ensiná-lo a nova forma de cumprimentar alguém. Samuel surpreendeu-se ao notar um sorriso no próprio rosto. Se há semanas não falava com ninguém, sentia que fazia mais de um mês que não ria de verdade.


Esse apartamento é gigante mesmo – Fabíola caminhava pela sala – é ainda maior do que aquele que você morava em Copa.


Era no Leblon.


A amiga dirigiu-lhe um olhar debochado. Andou até um sofá perigosamente próximo da porta do quarto e deixou o corpo afundar no estofamento.


Olha esse sofá!


Ele soltou uma risada sem sal. A porta chamava novamente seus olhos como um planeta a manter por perto suas luas.


Bebe alguma coisa? Uísque? Vinho?


Tem Itaipava? – o silêncio de Samuel a fez gargalhar novamente – vamos de uísque.


Unhas arranharam a porta do quarto por dentro, seguidas por lamentos agudos e arrastados. Tão rápido como começaram, chegaram a um fim abrupto.


O que é isso?


Não é nada. Vamos para a sacada. A vista de noite é bonita, você vai ver.


Samuel, tem um sofá na frente da porta.


Deixa isso aí, vem.


Guiou-a para a sacada, de onde a lua – naquele dia gorda e brilhosa – chamava toda a atenção para si. Fabíola suspirou, tentando absorver toda a vista de uma só vez.


Cacetada, Samuel, seus pais têm muito bom gosto.


Aproveite. Já volto com o uísque.


Não vamos falar mesmo do quarto proibido, trancado com um sofá? E de quando você me deixou esperando do lado de fora da porta naquele dia, fingindo que não estava em casa?


Ele a encarou sem saber o que dizer. Ela o fitava com um meio sorriso, parecendo divertir-se com sua confusão e, ao mesmo tempo, realmente curiosa para saber as respostas daquelas perguntas.


Está tudo bem com você? Samuel, quando eu falei que você não mudou nada, na verdade eu estava sendo agradável. Você está pálido e parece mais magro. E assustado.


Eu estou bem, e aquilo no quarto não era nada.


Parecia o Paolo chorando. Cadê ele?


Deve estar na casinha dele na área de serviço.


Deixa eu ir lá ver?


Depois, primeiro o uísque.


Saiu antes que a amiga o bombardeasse com mais perguntas. Cruzou a sala com passadas longas. As garrafas de vinho e de uísque, escolhidas de antemão, esperavam-no solitárias sobre o balcão da cozinha. Notou as mãos trêmulas quando tentou servir a bebida.


O som do sofá sendo arrastado fez seu coração afundar no peito. Correu para a sala, a garrafa de uísque ainda na mão. Fabíola tinha afastado o sofá e abria a porta do quarto.


O que está fazendo?


Deixa de ser bobo, Samuel, caramba. O Paolo não vai me morder. Eu quero apertar essa gracinha.


Os lamentos que saíam de dentro do quarto se intensificaram. O arrastar de unhas tornara-se constante. O mundo pareceu agir em câmera lenta. Enquanto ela abria a porta, Samuel pôde ver a mão negra se esgueirando para fora, os dedos secos, feitos de brasas, deixando marcas de queimadura na parede. Galgavam apoio para se puxarem para fora.


A garrafa de uísque voou pela sala e atingiu Fabíola em cheio na cabeça, explodindo em centenas de cacos empapados com álcool e sangue. Samuel chegou um segundo depois, a tempo de fechar a porta. Deixou o corpo escorrer pela madeira, pela maçaneta, e derramou-se em pranto no chão. Adiante, Fabíola gemia, tentando manter a consciência.


- - - - - - -


Não sei quanto tempo se passou desde a última vez que eu escrevi. Estou com muita fome.


Ela ficava lamentando lá dentro, pedindo para sair. Eu quase abri a porta. Quase. Tenho que lembrar disso: eles tentam te enganar, mandam gente de fora, fantasiada de amigos. Eles querem sair. Você tem que se lembrar disso, Samuel. Eles querem sair e nada que você pensar justifica abrir essa porta.


Eu sou um idiota. Como não vi? Ela nem lembrava de onde eu morava. Não era a Fabíola, eram eles. Estão por todo lugar. São o doutor, são meus amigos, são meus pais. Não tem mais ninguém normal no mundo, eu acho, só eu.


Mas se o mundo inteiro são eles, quem sou eu?




Este conto foi enviado para o desafio literário do site Entre Contos, cujo tema era Loucura. Ficou em 11º lugar entre os 33 classificados.

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©2020 por Marco Saraiva.